Antes do rito e fora da aldeia, os anciãos sentam sozinho no cerrado seco, encostados uma árvore, e tecem pacientemente feixes de palha sobre uma esteira verde. As mãos trabalham sem pressa, como se o tempo do fazer fosse tão importante quanto o objeto que vai surgir. Outros ajoelham-se frente a frente sobre um tecido vermelho e montam juntos peças do ornamento — as mãos de um encaixam no que as mãos do outro seguram, num gesto de colaboração que não precisa de palavras. No cerrado queimado, grandes feixes de buriti amarrado erguem-se do chão como colunas vivas: um homem de boné verde ata as fibras com corda, e o que era matéria bruta começa a tomar a forma das máscaras wamnhorõ, aquelas que Maybury-Lewis descreveu como vitais para a realização das cerimônias — confeccionadas pela classe de idade patrocinadora, símbolo da própria iniciação, e tidas como wapté i'wa'ru da, "para tornar os wapté maduros".
Quando os wapté chegam à aldeia, chegam em fila longa e vermelha, os torsos cobertos de urucum, carregando os troncos de buriti nos ombros. A câmera apanha-os de costas, e o que se vê é uma só massa em movimento — dezenas de corpos pintados de vermelho-sol, andando na mesma cadência sob o peso dos troncos. O vermelho aqui não é decoração: é o complexo conceitual inteiro que associa o bö ao sol e à força criadora, a pintura que fortalece e que identifica os wapté como detentores de poderes criativos especiais. No warã, já sentados no campo de terra vermelha, os wapté inclinam-se sobre os próprios troncos e aguardam — fileiras simétricas, costas nuas avermelhadas, cabeças baixas — enquanto outros homens, ao fundo, trabalham ainda nos ornamentos.
O momento da ornamentação acontece em dois registros distintos. No primeiro, um jovem com cocar de penas vermelhas e amarelas ajusta cuidadosamente o colar de contas ao pescoço de uma jovem mulher, face a face, numa proximidade que a multidão ao redor observa em silêncio — entre eles, um ancião de camisa azul segura um cesto trançado e acompanha o gesto com a atenção de quem sabe o que está sendo selado. No segundo, é o Danhohui'wa que age: de calça escura e faixa de palha na cabeça, ele ajusta com as duas mãos a máscara branca e preta à face da jovem wapté, que inclina levemente a cabeça para receber o ornamento, enquanto o warã inteiro serve de testemunha. A máscara cobre os olhos e o nariz, deixa a boca à mostra — é feita para ser vista, e para transformar quem a usa.
A corrida final acontece na poeira. A jovem de máscara corre em primeiro plano, o cordão branco do colar oscilando no pescoço, os olhos protegidos pelo wamnhorõ, a nuvem de pó do cerrado envolvendo tudo atrás dela. É o clímax do que Maybury-Lewis chamou de passagem de status: os wapté deixam de ser wapté e tornam-se homens e mulheres maduros perante a comunidade. A dança em roda que se segue acontece já na contraluz da tarde — silhuetas de mãos dadas, cocares de penas negras recortados contra o céu azul, o campo de terra vermelha estendido ao fundo onde toda a aldeia observa. O círculo fecha. O rito foi realizado a contento, wédi — belo, como os Xavante exigem que seja.