A cena abre no warã — o centro da aldeia, chão de terra vermelha seca, céu azul do cerrado mato-grossense. Dois danhohui'wa de short vermelho caminham lado a lado em direção a um amontoado de toras e folhagens no meio da praça. Deitado ali, um porco — oferta coletiva que vai alimentar o que está prestes a acontecer. Um terceiro homem se inclina sobre o animal com gestos precisos, quase domésticos, enquanto a comunidade inteira já ocupa a periferia do warã: cadeiras plásticas, grupos sentados, crianças, ĩhire — os anciãos — todo mundo olhando. Na cena seguinte, fumaça sobe das toras, o fogo pegou, e o trabalho continua enquanto um dos danhohui'wa, de pé, supervisiona com aquela calma de quem sabe exatamente o que vem depois.
A câmera recua e o warã se revela tomado. Dezenas de homens e rapazes se movem em grupos, a luz já dourada de fim de tarde colorindo tudo de âmbar. Os corpos estão pintados de daupté — o vermelho do urucum, o bö, cobrindo braços, tronco, rosto. Logo uma longa coluna caminha em direção à câmera — wapté e ĩprédu misturados, iniciandos e já iniciados, num fluxo que parece não ter fim. Numa imagem mais fechada, quatro rapazes aparecem em primeiro plano segurando os chocalhos de cabaça, cantando com aquela concentração fechada de quem está dentro de algo que não se interrompe. As ai'uté — as crianças — observam ao fundo, quietas.
Então a câmera encontra a entrada mais carregada de todas: contra-luz, dentro de um buritizal denso, uma coluna longa de homens cobertos de daupté emerge caminhando em direção à aldeia. O líder carrega ramos de uiwede dzadarã, a palmeira de buriti. São muitos — a fila desaparece dentro da vegetação como se o cerrado os estivesse liberando aos poucos. Chegando ao warã, o grupo para de costas para a câmera, cada um com seu ramo verde na mão. Há uma contenção nessa postura — corpos dos aihö'ubuni preparados, respiração segurando o momento.
O ritmo quebra. A praça esvazia de repente — um ai'repudu, menino, cruza sozinho o vão enorme entre as casas — e então um bando de wapté dispara em corrida coletiva, levantando poeira vermelha, desaparecendo em direção à mata. Corpos entre dois estados, ainda em trânsito, nem mais ai'repudu, ainda não 'ritéi'wa. Voltam pela direção oposta, ainda correndo, a poeira suspensa no ar seco, o cerrado fechando atrás.
A última imagem fecha o ciclo: vários homens sustentando juntos um porco amarrado a toras, o animal içado pelos pés, os braços de diferentes classes de idade presos à mesma madeira. O esforço é coletivo e completamente visível. O warã guarda tudo.