Há um trabalho necessário antes das lutas. Os wapté pintados de preto com o bloco vermelho no abdome avançam em fila sobre a terra revolvida, cada um com suas bordunas nas mãos, o corpo levemente inclinado para frente no esforço coletivo. Não é separação entre trabalho e cerimônia — é a mesma disposição corporal, o mesmo alinhamento que vai aparecer depois no pátio da luta. A fila que capina é a mesma fila que vai lutar.
Quando o espaço está pronto, os wapté se retiram para as margens e sentam. As crianças menores, pintadas de vermelho com as tsörebdzu no pescoço, formam uma fileira comprida na beira do campo — braços cruzados, olhos fixos no centro, a postura de quem assiste mas já pertence ao que está sendo visto. De um lado os wapté de preto agachados, do outro as crianças de vermelho sentadas: a divisão cromática já organiza o espaço antes de qualquer luta começar.
O condutor entra sozinho no campo. Caminha devagar com a vara, observa, define os pares. Maybury-Lewis descreveu exatamente esse papel: os adultos selecionam os oponentes por tamanho, fazem parar quando necessário, garantem que cada menino lute mais de uma vez. O que a câmera mostra tem essa mesma lógica — não há placar, não há árbitro no sentido esportivo, há um homem com uma vara que sabe quando o suficiente é suficiente.
A luta é direta e rápida. Os corpos se agarram pela cintura, os pés escorregam na terra vermelha úmida, alguém cai e a areia gruda na pintura preta. Num momento, três ou quatro se enroscam num único nó de braços e pernas que a câmera mal consegue desfazer — e um jovem de vermelho fica de pé ao lado, esperando sua vez com os punhos semifechados. A contenção de quem espera é tão intensa quanto o esforço de quem luta.
A câmera se afasta e o que aparece é a escala: a plateia de wuaradzu misturada com Xavante nas margens, os telhados coloniais ao fundo, a antena parabólica visível entre as casas. E no centro, dois jovens sentados no chão com a pintura de preto ainda intacta, o bloco vermelho no abdome, os olhos que olham para frente com uma expressão que não é orgulho nem exaustão — é a face de quem acaba de confirmar uma posição. O ancião que aparece depois, com a tsörebdzu no pescoço e o urucum na testa, não precisa falar para que se entenda o que sua presença significa: é ele que carrega a memória do que essa luta sempre foi, muito antes de haver câmeras nas margens do campo.