A neblina chegou antes do dia clarear e ficou. O warã desaparece na névoa a partir da segunda fila de pessoas — só se vê o que está perto, e o que está perto é suficiente. As mulheres e as crianças fecham o círculo do lado do clã de cada uma. Os homens do outro lado. Cada pessoa no lugar que a organização social do povo determinou antes mesmo de nascerem.
Os lutadores já estão preparados desde as quatro da madrugada. O pai acordou o filho no escuro, passou o chá de raiz que tira o medo do corpo, amarrou as cordinhas no pulso direito, no esquerdo, na cintura — o wedenhôrô que, segundo os anciãos, segura a dor. A danhô'rebdzu'a foi colocada por último, as penas escolhidas pelo clã, não por qualquer um. Quando saem de casa já são outra coisa.
No centro do warã, Poreza'õno contra Öwawê — girino contra água grande, como sempre foi. A raiz do ói'ó desce nos braços e nas costelas do adversário. Os meninos batem para valer — é a última luta, os anciãos disseram, e todos sabem o que isso significa. O que não recua mostra ao povo de que é feito. O que cair se levanta. O que chorar aprende que a dor existe e que o outro também a sente — e isso é o começo do respeito.
Não é um combate só. Em vários pontos do warã as duplas se formam ao mesmo tempo — Poreza'õno e Öwawê em toda parte, o clã representado pelo corpo de cada menino. Os avôs gritam do lado de fora do círculo. Os pais dão dicas de onde segurar, de como firmar o abdome. Um menino menor enfrenta um mais velho e não recua — a diferença de tamanho é visível e não é argumento.
Quando termina, os wapté deixam os chinelos no chão e formam fila de mãos dadas na borda do warã. A neblina ainda não levantou. Eles estão de costas para a câmera, de frente para o hö. Depois dessa fila não são mais ai'repudu — são wapté, e o hö os espera do outro lado da névoa.