Antes de qualquer corrida, há o que precisa ser depositado. As mulheres atravessam o espaço aberto carregando as ba'õno — meninas pequenas — em direção aos wapté prostrados sob mantas coloridas no chão de terra batida à sombra das árvores. É o momento do isira'ri: a apresentação formal das meninas destinadas aos futuros ritéi'wa, o gesto pelo qual os grupos domésticos reconhecem mutuamente os laços de afinidade que o danhono está prestes a consolidar. Os corpos dos wapté estão invisíveis sob as mantas — estão fora do tempo ordinário, suspensos entre a fase de ai'repudu que deixaram e a condição de ritéi'wa que ainda não alcançaram. As folhas verdes depositadas ao lado deles não são enfeite: são a marca vegetal de uma fronteira que está sendo atravessada.
Dois homens com pintura facial preta avançam pelo warã carregando nos ombros os troncos do tsauriwa. Não há ornamento nos troncos — apenas o peso e a direção. São os danhôhui'wa — os padrinhos, rapazes na fase ritéi'wa que já usam o pauzinho na orelha — que organizam e conduzem esta etapa. O tsauriwa não é uma corrida de chegada: é uma corrida de suportação, de tetedi, a qualidade que os Xavante identificam em pessoas e coisas como resistência e solidez — a da árvore de madeira difícil de ser talhada.
Quando o grupo parte pela estrada de terra vermelha, a imagem é de unidade cromática absoluta: dezenas de corpos cobertos de bö — o urucum que está associado ao sol, à criação e à força vital — correm compactos levantando poeira do cerrado. Neste momento a distinção entre os clãs po'redza'ônô e öwawê, entre waniwimhá e watsire'wa, suspende-se: todos correm como um único corpo, porque o tsauriwa exige essa unidade antes de qualquer outra coisa.
Mas os danhôhui'wa já os esperam. Agachados em fila longa ao longo do caminho, pintados com largas faixas de carvão e bö sobre o tronco, segurando varas com palmas de buriti atadas — os wamnhôrô — estão em posição de emboscada ritual. Quando os corredores passam, os padrinhos irrompem em zigue-zague, aplicando sobre eles o veneno cerimonial: o movimento irregular do corpo descreve a mesma trajetória que o perigo percorre quando entra num homem que está a tornar-se adulto. É a wa'i em forma de corrida — resistência, habilidade, o corpo aprendendo a suportar o que vem de fora.
No regresso à aldeia, os wapté sentam-se no chão, cobertos de bö, os danhô'rebdzu'a — as gravatas tradicionais de algodão vermelho com penas — visíveis sobre o peito, os cordões brancos de abadzi nos tornozelos. Uma mulher debruça-se sobre um deles e impõe as mãos — gesto lento, sem urgência. O corpo que estava coberto está agora descoberto. O que estava prostrado está agora sentado. O tsauriwa terminou; o ritéi'wa começou.