O açude aparece antes de qualquer corpo. A água que escorre sobre o dique de terra batida, ao entardecer, levanta uma névoa fina que paira sobre a superfície — e na margem oposta, recortado contra o céu azul que ainda tem luz, um único tronco de árvore seco aponta para cima como um eixo. É uma imagem de espera. O rito que vai acontecer ali exige que o espaço esteja preparado antes que os corpos cheguem.
Quando chegam, chegam em grupo. Os jovens entram na água com a cadência de quem já fez aquele movimento muitas vezes naqueles dias — porque o Wate'wa é repetição: Moritu & Fernandes descrevem o período de vinte a trinta dias em que os wapté mergulham repetidamente no riacho para fortalecer o corpo e anestesiar progressivamente as orelhas antes do daporedzapu. O frio da água não é punição — é preparo técnico. A margem de pedra laranja, as cabeças que mal emergem, os braços dobrados junto ao peito num gesto que combina resistência e submissão: o corpo aprende, naquelas águas, o que vai ser pedido a ele.
A furação ocorre no warã, à plena luz. Um jovem senta-se com a cabeça inclinada para a frente, o cabelo molhado cobrindo o rosto — e sobre essa cabeça baixa, mãos trabalham com o ponteiroó de osso ou madeira fina, buscando o ponto exato do lóbulo que as semanas de água tornaram insensível. Outros corpos rodeiam: alguns de pé, alguns agachados, todos orientados para o mesmo centro. A imagem do daporedzapu em Adailton Silva é sempre coletiva — não há furação privada, não há dor privada. O que o rito faz ao corpo de um, a comunidade testemunha no corpo de todos.
O cuidado que se segue é tão rigoroso quanto o rito. Mãos que seguram a cabeça, fio vermelho que vai sendo ligado ao cabelo molhado para marcar o ornamento que ali passará a viver, o ponteiroó ainda presente como instrumento de verificação — e uma criança ao fundo que observa com a seriedade de quem ainda não passou por aquilo mas já sabe que vai passar. O Danhohui'wa, o padrinho, é quem conduz estes gestos; e Moritu & Fernandes lembram que esse vínculo não termina com o rito: o padrinho que furou a orelha acompanha o jovem pelo resto da vida. O orifício aberto no lóbulo é o sinal permanente de uma relação que o daporedzapu inaugurou.
À volta deste núcleo central, o conjunto de imagens mostra o que sustenta o rito: a fila dos wapté a sair do Hö em direção ao açude, o ancião de bastão no warã ao entardecer, as mulheres alinhadas que assistem a tudo com atenção que não é passividade. E depois, quando a tensão principal se dissipou, a dança em roda — mãos dadas, pés levantando poeira, o círculo que reconstitui o grupo depois do que cada corpo acabou de atravessar individualmente. A dança não celebra o fim: reintegra. O corpo que saiu da água e foi furado volta ao grupo pelo movimento coletivo, e o grupo fecha-se à volta dele como a água fechou sobre os ombros dos jovens no açude.