A preparação aconteceu dentro de cada casa, longe dos olhos dos outros. O pai pintou o filho antes do sol — o urucum em blocos sobre o peito e o abdome, a tiara de folha de buriti verde na testa, o grande novelo de algodão branco colocado nos ombros como quem carrega o que vai ter que entregar. Esse algodão é muito caro na sociedade A'uwê. Quando o wapté sair pela porta e atravessar o centro da aldeia em direção ao hö, os padrinhos estarão esperando para retirá-lo. Depois disso, ele não volta mais como criança.
Os homens mais velhos já circulam pela aldeia pintados — urucum vermelho nos ombros e no abdome, o wedenhôrô no pescoço, o bordão na mão. Três deles param na beira da grama entre as casas e ficam parados com a cabeça inclinada para baixo. Não é espera sem forma — é a posição de quem conhece o peso do momento e não precisa demonstrá-lo. Um pouco adiante, sob as árvores, outro homem conversa e ri com o carvão preto nos ombros e o urucum vermelho no abdome e um cigarro na mão direita. A pintura e o cigarro não disputam o mesmo corpo — dividem.
Os wapté saem em fila de dentro do hö. O novelo de algodão pesa nos ombros de cada um — pescoço erguido para sustentar, olhar para baixo conforme a norma, o passo lento que a marcha cerimonial exige. As crianças menores olham da beira do caminho com os braços cruzados. Duas câmeras de pesquisadores registram a fila. A câmera está no quadro e não é a única.
Na porta do hö os padrinhos retiram o algodão de cada wapté que chega. O novelo passa de um ombro para uma mão e o menino entra na casa. A mãe não pode entrar. Ela fica do lado de fora, e a saudade que ela sente a partir daqui será visitada duas vezes ao dia, às quatro da manhã e ao pôr do sol, quando o filho vier à casa com a cabeça baixa e ela puder passar a mão no corpo dele para ver se não tem machucado.